A primeira vez que chorei por causa de escola
Esses dias eu me lembrei de alguns professores, algumas figuras, que encontrei na faculdade. Principalmente os que fizeram comentários e ações machistas – um em específico cismava com somente as alunas, e na avaliação final disse que um dos meus desenhos no meu caderno parecia “boneca de capa de caderno”, e o da minha amiga “desenho de escola de freiras” – por ter flores talvez? – e outros por serem muito acadêmicos voltado para o tradicional, eurocentristas e tal como já discuti neste blog antes. Pensando nestes clássicos professores, me lembrei de um em específico.
Este professor me marcou, pois era um professor muito querido por alguns alunos que o achavam atraente – apesar de ser mais velho tinha cabelos longos amarrados e se vestia bem – e inteligente. Porém para mim, ele claramente só sabia da área que ele tinha especialização (Barroco e arte europeia), porém assim que ele saia de sua área, ele falava coisas sem sentido e fingia saber do assunto. Já ouvi muitas besteiras que ele falava, porém muitos nem prestavam atenção pois a aula era de “História da Arte” basicamente e era bem maçante e cansativa, sendo também a nossa única aula teórica no primeiro semestre e a sala era lotada com as duas turmas juntas. Meu momento preferidos dele falando coisas absurdas, e que eu brinco bastante entre meus amigos e encho o saco da minha amiga que gostava dele, foi quando uma senhorazinha que fez aula com a gente e era confeiteira, foi discutir ou responder algo na aula dele. Ela disse que os bolos que ela faz são a artes dela e que ela ama e se expressa assim, e eu pensei que foi bem diferente e legal de ouvir, porém o professor após ouvir calado ela despejar o coração dela e a história basicamente do porquê ela quis fazer o nosso curso, ele simplesmente adicionou “É, mas açúcar é veneno. Açúcar mata neurônios.”. Icônico simplesmente, uma das frases mais absurdas que eu já vi. Virou uma espécie de piada interna entre mim e meus amigos.
Mas com este mesmo professor, teve um acontecimento marcante na minha história educativa. Para o nosso trabalho final da matéria dele, foi passado de orientação apenas que o trabalho teria que seria um relacionado ao que a gente aprendeu durante todas as aulas de “História da Arte” esta história é claro que só foi explorada em grande parte o período pré-histórico, o movimento Barroco, Grécia, Egito, Itália etc. Esse trabalho eu achei extremamente o que chamaríamos em inglês de “overwhelmed”. Eu nunca tive um trabalho tão livre e vago e com pouco tempo para fazer já que estava fazendo diversos outros para diversas aulas ao mesmo tempo, então no fim apenas desenhei algo para entregar e não ficar com zero pois estava sem ideias e muito estressada. Meu trabalho eram uma série de desenhos de quadros de artes famosos dos povos que estudamos, porém, re-imaginados no estilo e técnica de outro povo (por exemplo a Mona Lisa pintada, porém no estilo dos desenhos presentes nas pirâmides egípcias etc. Não lembro exatamente pois faz anos que não olho para esses trabalhos (não por acaso). Ele disse também que deveríamos pendurar/expor nossos trabalhos ao redor do prédio da Belas e que a escolha do local seria importante e deveria ser pensado com um sentido em mente. Resolvi pendurar numa área externa no último andar. Logo percebi que alguns trabalhos que os alunos foram apresentando não tinham absolutamente nada a ver com a aula. Eram apenas trabalhos livres – um adesivo especificamente ele gostou muito. Quando foi a minha vez, mostrei os desenhos já esperando que não fosse bem recebida pois percebi a diferença do conteúdo do meu e o dos meus colegas que foram elogiados, na hora de explicar a locação que escolhi, disse que escolhi um local “externo” porque tudo que a gente aprendeu (e o que eu utilizar para fazer o meu trabalho) eram vieram de fora, principalmente Europa e a gente não aprendeu nada sobre o Brasil ou a América Latina, nem mesmo a Ásia que é tão anciã como o outro.
Segundo a minha professora de Japonês, ela acha que o ego dele foi ferido, porque em seguida ele acabou com meu trabalho, me xingando e me humilhando na frente de diversos dos meus colegas. Repetindo coisas que eu já sabia, mas que não podia dizer nada pois ele deixava claro que não daria brechas para eu falar, somente ele que falaria. Ele disse que parecia um “exercício” de desenho mais do que um trabalho – o que eu posso concordar, porém ele exigiu um trabalho de um nível de terceiro semestre de faculdade. Até então todas as matérias eram apenas técnicas, só ensinando desenho, pintura com diversos tipos de tinta, artes gráficas, cor, forma etc., e uma das grandes coisas que estava me estressando foi a parte de “ter que ser relacionada com tudo que estudamos esse semestre”, coisa essa que nenhum dos alunos que ele gostou fez então na verdade ele não queria isto, ele queria um arte moderna e livre. Parecia que fui jogada no mundo artístico do nada, e me senti extremamente envergonhada do meu trabalho supérfluo e nem um pouco aceitável. Ele me disse então “Eu queria saber mais da Luna, uma mulher, negra, latina vivendo no Brasil no século XXI” e eu me senti muito frustrada e com raiva. Primeiramente me senti como se ele estivesse me infantilizando pois foi algo muito esquisito para ele, um homem branco que somente estuda arte europeia e não nos passou outros tipos de referências diferentes – literalmente nenhuma mulher –, falar para mim. Ele poderia muito bem ter a humildade de entender a minha crítica e me explicar que nós teríamos no futuro uma matéria de História da Arte do Brasil depois, coisa que eu não sabia é claro, porém ele levou aquela crítica a grade muito pessoalmente. Ele disse coisas como “Alguns de vocês acham que ainda estão no ensino médio, aqui não é assim” e outras coisas que deram a entender de que eu não sei o que é ser artista e que talvez esse curso não fosse para mim, não sei exatamente pois apaguei vários pedaços dessa parte da memória e só agora escrevendo sobre que algumas coisas que ele disse estão voltando. Essa foi a primeira vez que senti que me senti não suficiente para a faculdade. Envergonhada, eu tiver que ouvir o discurso dele repetitivo de boca fechada com os dentes rangendo. Apenas concordei no final porque percebi que não valia apena, e depois eles mudaram para a próxima apresentação. Meu mundo parou um pouco e acho que ouvi um zumbido pois algo estava bloqueando o áudio ao meu redor. Agora pensando bem, acho que meu amigo apertou meu braço tentando me consolar silenciosamente. Eu saí do grupo, e fui para um canto no fundo de um corredor, perto da janela onde tinha uma cadeira com braço solitária.
Lembro que quando cheguei na faculdade me perguntava sobre o porquê de ter algumas cadeiras sozinhas espalhadas por alguns corredores. Bom, naquele dia eu descobri. Me sentei nela, e na janela ao lado havia um trabalho de outro aluno colado feito com papeis transparentes coloridos em que a luz do dia passava. Comecei a chorar. Essa foi a primeira vez que chorei por causa de professor ou nota. Quando pequena, eu tinha um pacto comigo mesma de que nunca choraria por causa de nota, porque notas não são tão importantes a esse ponto. Me deixei sentir tudo aquilo que estava sentindo e chorar sozinha naquele canto aconchegado que parecia perfeito para essas situações. Essa situação terrível se tornou uma memória formadora para mim.
